Bicicleta, bola e pipa: nas ruas da periferia, o Dia das Crianças resiste

Bicicleta, bola e pipa: nas ruas da periferia, o Dia das Crianças resiste

12 de outubro de 2019 0 Por Clayton Lima
Ricardo e Pedro em festa das crianças no Grajaú

Ricardo e Pedro em festa das crianças no Grajaú
Arquivo pessoal

“Ele acorda por volta das 9h, nem toma café, já pega a bicicleta e vai andar em frente de casa. Entra por volta do meio-dia, toma banho correndo, almoça e vai para escola. Quando retorna, a mesma coisa: nem tira a roupa da escola, pega a bicicleta e vai andar na rua. Esse é o Pedro.” É assim que a gestora comercial Iara Garcia, 44 anos, descreve a vida do neto de seis anos.

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O menino Pedro Henrique Garcia Bandeira, morador do Grajaú, no extremo da zona sul de São Paulo, mantém a essência da criança que vive na periferia paulistana. As brincadeiras são nas ruas e a tecnologia ainda não predomina.

A história de Pedro se confunde com a de tantos outros meninos e meninas que comemoram, neste 12 de outubro, o Dia das Crianças na margem da cidade — vivendo entre os riscos de uma metrópole e a ausência de serviços públicos.

Ricardo Miguel Gomes Ferreira, de oito anos, também acorda cedo todos os dias e sai de casa para ficar sob cuidados de familiares, enquanto a mãe trabalha. A maior parte do dia, fica no salão de cabeleireiro do tio Caio Gustavo, na mesma rua onde mora.

A convivência com a profissão já determinou o primeiro sonho dele: quer ser cabeleireiro. Mas nem sempre ele está dentro do salão na companhia de adultos. “Às vezes ele some e a gente vai no campo, porque é certeza que vai encontrar ele lá, jogando bola”, diz a cabeleireira Renata Duarte, 38 anos, tia do menino.

Ricardo só deixa a bola de lado durante os períodos de férias escolares. A diversão ganha uma concorrência de peso, que são os pipas. O menino é apaixonado pela brincadeira, e as escapadas para o campo de futebol, às vezes, é apenas para empinar pipa. 

Já Pedro “não é muito fã de pipa”, conforme afirma a avó. Quando pergunta o que quer ser quando ficar grande, ele diz algo que não tem nenhuma influência dos familiares. Deseja ser mecânico. “Ele gosta muito de carro, acho que é por isso”, diz Iara.

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Por trás das brincadeiras e ingenuidade das crianças, existe a preocupação de seus responsáveis. Para Renata, a principal preocupação hoje “é a questão das drogas, porque a gente vê muitas crianças nessas coisas”, e também se atenta para o desenvolvimento escolar.

Iara acredita que os principais desafios na educação das crianças está na construção do futuro das crianças mesmo com as dificuldades de viver na periferia.

“Moramos em um bairro sem nenhum recurso, sem infraestrutura alguma, e as crianças só têm alguma diversão quando tem a ação social. Então a preocupação mesmo é fazer dessa criança um homem com o pouco que temos, mas com muito amor”, afirmou Iara.

Festa na quebrada 

Pedro e Ricardo estão entre as centenas de crianças que ganharam kits com doces, brincaram no pula-pula e piscina de bolinhas e receberam pintura facial durante a festa das crianças organizada pelo projeto social do time de várzea Veneza Futebol Clube, que aconteceu no sábado anterior ao Dia das Crianças.

O evento, organizado por moradores da região que fazem parte do time de futebol, aconteceu pelo quarto ano seguido. Na edição deste ano, o diretor do projeto Renato Novais, 37 anos, disse que foram distribuídos 380 brindes para crianças.

Além das brincadeiras e kits, o evento teve distribuição de hot dog, carne maluca, algodão doce, pipoca e refrigerante. O objetivo do projeto é “fazer algo que nunca tinha tido para as crianças aqui da comunidade”, afirma Renato.