#COVID19

O caso de reinfecção pela covid. E a ampliação das incertezas

Organização Mundial de Saúde diz que ainda é cedo para tirar conclusões, mas achado pode impactar no desenvolvimento de vacinas contra doença causada pelo novo coronavírus

PASSAGEIRO USA MÁSCARA DE PROTEÇÃO CONTRA A COVID-19 EM AEROPORTO DE HONG KONG

Um homem de 33 anos foi infectado duas vezes pelo novo coronavírus num intervalo de apenas quatro meses e meio, segundo pesquisadores da Universidade de Hong Kong, território autônomo da China, em anúncio feito na segunda-feira (24). Trata-se do primeiro caso documentado de reinfecção pelo agente causador da covid-19. Relatos de pessoas que contraíram a doença pela segunda vez são raros, mas já eram investigados, inclusive no Brasil, embora ainda não tivessem tido confirmação.

O achado levanta dúvidas sobre a capacidade de resposta do organismo ao novo coronavírus e pode ter reflexos no desenvolvimento de vacinas. Ao comentar o caso, a OMS (Organização Mundial de Saúde) afirmou que a reinfecção é possível de acontecer, mas que ainda é cedo para tirar conclusões do episódio. A entidade lembrou que as pessoas não precisam ficarem preocupadas, pois há evidências de que doentes com covid-19 desenvolvem uma resposta imunológica ao vírus mesmo que tenham apresentado sintomas leves.

“Sabemos que as pessoas [infectadas] produzem resposta imunológica, mas não sabemos ainda quanto tempo ela dura e nem quão forte ela é. Precisamos de estudos para entender como essa resposta funciona”

Maria Van Kerkhove

epidemiologista e líder técnica da resposta à covid-19 da OMS, em entrevista na segunda-feira (24)

23,5 milhões

de casos de infecção pelo novo coronavírus tinha sido registrados em todo o mundo até a segunda-feira (24), segundo dados da Universidade Johns Hopkins, nos EUA

810.249

era o número de mortos pela doença nos 188 países atingidos pela pandemia até a mesma data, segundo a instituição

O primeiro caso documentado
A reinfecção pelo novo coronavírus aconteceu em um trabalhador da área de tecnologia da informação que vive em Hong Kong. Em março, ele teve tosse, dor de garganta, febre e dor de cabeça. Os sintomas duraram três dias. Em 26 de março, após realizar um teste PCR (que identifica a presença do vírus no organismo a partir da análise se amostras de secreção da garganta e do nariz), foi diagnosticado com a doença.

Em 29 de março, o paciente foi internado para observação, apesar de os sintomas já terem diminuído. Em 14 de abril, foi considerado curado depois de fazer dois exames com resultado negativo num intervalo de 24 horas entre os testes.

Já a segunda infecção foi identificada em 15 de agosto, quando o homem desembarcou no aeroporto de Hong Kong. Ele voltava de uma viagem à Espanha, com conexão pelo Reino Unido. O paciente foi hospitalizado novamente, embora não apresentasse nenhum sintoma. Radiografias do tórax também não revelaram nenhuma anormalidade em seu pulmão.

O que foi analisado

Inicialmente, os pesquisadores do departamento de microbiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Hong Kong, que estudaram o caso, buscaram entender se o vírus presente no organismo do paciente era remanescente da primeira infecção.

O mapeamento genético da primeira infecção comparado ao da segunda mostrou que não. É rara a presença do novo coronavírus no organismo dos doentes de covid-19 por mais de um mês.

O primeiro genoma do vírus estava mais próximo ao que havia sido observado nos Estados Unidos e no Reino Unido em março e abril. Já o segundo se assemelhava ao novo coronavírus que circulava na Suíça e na Inglaterra em julho e agosto. Havia diferenças suficientes entre eles para descartar a hipótese de quem era o mesmo vírus.

“Nossos resultados provam que a segunda infecção foi causada por um novo vírus que ele adquiriu recentemente, em vez de uma presença viral prolongada”, afirmou o microbiologista Kelvin Kai-Wang To, da Universidade de Hong Kong, ao jornal The New York Times.

No Brasil, pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto relataram no início de agosto um caso de um enfermeira de 24 anos que acusou positivo em dois testes PCR feitos num intervalo de 50 dias. Não houve, porém, mapeamento genético do vírus nesse caso, o que deixou em aberto algumas dúvidas, como uma possível falha no resultado de algum dos exames feitos, embora essa possibilidade seja baixa.

As implicações da reinfecção
O caso traz novos elementos para a discussão sobre a resposta imunológica contra a covid-19. Estudos têm mostrado que os níveis de anticorpos em infectados pela doença que se curaram caem de dois a três meses após o contágio. Pesquisadores alertam, porém, que isso é normal e que o sistema imunológico não conta apenas com anticorpos para combater o vírus, mas também com células de defesa.

As chamadas células T são responsáveis por matar as outras células que foram invadidas pelo vírus. Pesquisas apontam que elas podem desenvolver uma memória duradoura de infecções anteriores. Poderia haver, inclusive, uma imunidade cruzada, ou seja, a proteção desenvolvida pelo contágio com outros tipos de coronavírus funcionaria também para a covid-19.

O fato de o homem infectado duas vezes não ter apresentado sintomas após o segundo contágio foi visto como um bom sinal. A proteção do organismo não impediu que o vírus entrasse no corpo, mas as células T podem ter guardado a memória da primeira infecção e reagido de forma a evitar que a doença evoluísse.

Imunidade de rebanho e vacinas
O achado dos pesquisadores chineses colocou ainda em dúvida a tese da chamada imunidade de rebanho — que tem sido usada por alguns especialistas para explicar a queda na transmissão do vírus em lugares que sofreram duramente com a pandemia, como Manaus, por exemplo. A cidade viu a curva de casos e mortes cair depois de alguns meses, sem ter efetivamente colocado em prática medidas de isolamento social.

Essa ideia considera que, quando um número significativo de pessoas numa comunidade contrai o vírus e desenvolve proteção natural contra ele, a transmissão tende a ficar mais difícil porque o vírus começa a encontrar barreiras ao pular de uma pessoa a outra. A pandemia tenderia, portanto, a enfraquecer. Essa imunidade coletiva seria conquistada após muitas mortes.

O que o caso de Hong Kong mostra, porém, é que a imunidade de rebanho não seria capaz de eliminar, por si só, o novo coronavírus, já que uma pessoa poderia se infectar mais de uma vez e continuar a ter um papel de vetor dentro da cadeia de transmissão.

O achado sinaliza, portanto, a possibilidade de a covid-19 continuar a circular entre as pessoas, como já ocorre com outros tipos de coronavírus sazonais. A reinfecção por esses agentes infecciosos é comum.

A única forma efetiva de criar uma imunidade coletiva, portanto, ocorreria pela vacina. Mesmo pessoas que já tiveram o vírus no passado teriam de se vacinar. A depender do tempo de proteção garantido pelos imunizantes que estão sendo testados, as vacinações também teriam de ocorrer de tempos em tempos.

O fato de a reinfecção ser possível também reforçou a necessidade do uso constante de máscaras, da lavagem frequentemente as mãos e da manutenção das regras de distanciamento e isolamento social mesmo entre as pessoas já tiveram covid-19 no passado.

Fonte: NexoJornal

 

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