Saúde e Coronavírus

O tempo está passando mais rápido? A reposta pode estar nos seus neurônios

Quem nunca sentiu o tempo passando mais rápido? De acordo com cientistas, a explicação para essa sensação pode estar nos nossos neurônios e no tempo de exposição a determinados estímulo.

Quando recebemos um estímulo visual ou sonoro com a mesma duração seguidas vezes, neurônios de uma determinada parte do nosso cérebro começam a ficar exaustos e diminuem a atividade. Por exemplo, quando assistimos o mesmo filme ou ouvimos a mesma música várias vezes.

Por consequência, podemos perceber o tempo passar de maneira levemente distorcida. Tanto para mais, quanto para menos.

De acordo com um estudo publicado na revista científica Journal of Neuroscience, o cansaço de um grupo de neurônios especialmente sensíveis à noção de tempo — localizados no giro supra marginal, parte do cérebro responsável por processamentos sensoriais — pode ser a causa dessa sensação.

Entenda o estudo

Para investigar a relação entre esses neurônios e a percepção do tempo, os cientistas selecionaram um grupo de 20 pessoas, com idade média de 21 anos.

Na primeira fase da pesquisa, eles mostram aos participantes uma mesma imagem (um círculo cinza) por períodos muito curtos de tempo, menores do que um segundo, 30 vezes seguidas.

Uma parte do grupo recebeu a versão curta do estímulo, de 0,25 segundos, e outra parte a versão longa, de 0,75 segundos.

Em seguida, os cientistas iniciaram os testes para avaliar se a percepção do tempo dessas pessoas havia se alterado. Os pesquisadores mostraram aos participantes o mesmo círculo por durações de tempo um pouco maiores: de 0,35; 0,45; 0,55 e 0,65 segundos cada. Ao mesmo tempo, um toque sonoro com duração de 0,50 segundos era executado.

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De acordo com pesquisadores, exposição a estímulos repetitivos por longos períodos afeta a percepção do tempo. (Foto: Steinar Engeland/Unsplash)

Posteriormente, foi solicitado aos participantes que indicassem se o barulho tinha durado mais ou menos do que a exibição das imagens. Para os que receberam as repetições curtas na primeira fase do estudo, o ruído que durava 0,5 segundos pareceu ser mais rápido do que a exibição da imagem na tela que durou 0,35 segundos.

Por outro lado, para as pessoas que receberam a repetição mais longa, de 0,75 segundos, o efeito foi o contrário. Os participantes sentiram que o ruído era mais demorado do que as imagens que ficavam mais tempo na tela, como a de 0,65 segundos.

Seus neurônios podem estar mentindo para você

Durante os testes, os participantes tiveram os cérebros escaneados por um aparelho de ressonância magnética funcional, capaz de detectar a atividade no órgão. Nessa fase, os cientistas perceberam que os neurônios sensíveis ao tempo tinham uma atividade menor. Era como se estivessem cansados após as repetições sensoriais às quais foram submetidos.

De acordo com os autores do estudo, isso poderia explicar por que sentimos o tempo passar de forma diferente do tempo chamado físico.

“É melhor não confiar na sua percepção de tempo após ter sido exposto a repetidos flashes de imagens ou barulhos”, afirma Masamichi Hayashi, neurocientista na Universidade de Osaka, do Japão.

Embora os resultados possam jogar luz sobre aspectos ainda misteriosos da relação entre os seres humanos e o tempo, há um alerta. Hayashi lembra que a pesquisa que conduziu tem a limitação de ter investigado essas alterações na percepção para períodos de tempo muito curtos.

“Pesquisas futuras terão de estudar se nossos resultados podem ser aplicados à percepção de intervalos de tempo mais longos”, conclui o cientista.

EVERTON LOPES BATISTA/FOLHAPRESS

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